Você não vai para o céu. Desculpe
dizer assim tão sem rodeios, mas é bom que saiba logo. Não espere o
paraíso com anjinhos, ou virgens, ou casas de ouro, não é para lá que
você vai.
A boa notícia é que você também não
vai para o inferno. Para quem temia a possibilidade de arder
eternamente no caldeirão de fogo, o cheiro de enxofre, as doloridas
cutucadas de tridente, relaxe, não é para lá que você vai.
De tempos em tempos, dependendo da
cultura, da época, das referências daquele povo, a expectativa do que
acontecerá depois da morte tende a se projetar conforme os valores
vigentes.
Talvez seja por isso que atualmente
tanta gente projeta no “além” uma vida cheia de tecnologias,
computadores, trens modernos, como por exemplo no filme “nosso lar”. É
diferente do “céu” dos muçulmanos onde as virgens, várias para cada
guerreiro (é um céu para homens), serão recebidos com ardor e alegria.
Nosso pensamento é condicionado ao
tempo e espaço. Precisamos do tempo, da linearidade das percepções, do
hoje e do amanhã, do hoje estou, amanhã irei. Assim como precisamos do
espaço: para onde vamos, lugar de amor, sair daqui, ir para lá, mas, e
se essas referências não valerem para a consciência? A “coisa” que somos
e anima esse corpo que morre um pouco todos os dias.
A “coisa” não morre, não se submete as leis físicas, mas o corpo um dia perece.
Isso quer dizer que a razão pela
qual você não vai para o céu ou para o inferno é que você já está em um
ou outro. Na verdade céu e inferno, a “casa” para onde você vai é você.
Estamos construindo nossas “casas” na temporalidade, experimentando os
efeitos de sermos humanos e relativos, imersos no tempo, no espaço, mas
tudo isso é apenas uma forma de percepção.
Sua “eterna morada” já é e aumenta
sempre que você se expande em amor, em simplicidade, em sabedoria. Cada
“tijolinho” dessa casa que cresce para dentro é doado pela vida em cada
oportunidade para ser, crescer, transcender a carne, a pele, o sangue.
Céu e inferno não são lugares fora
para onde iremos. Céu e inferno somos nós, existe em nós e, depois que
esse corpo deixar de existir, se estenderá conforme estamos criando hoje
em nós. Sua verdadeira casa não é feita de cimento, sua eterna morada
não é uma construção física, nem tecnológica, nem de qualquer outra
natureza. A casa é você e cada escolha feita hoje, por menor que seja, é
material para que ela aumente ou diminua.
Isso não quer dizer que as
esperanças ou expectativas em relação à morte, sejam elas quais forem,
são falsas. Na minha opinião são apenas retratos descritos por quem hoje
enxerga com limites, os limites da cultura, das crenças, do tempo, do
espaço, do corpo, e descreve o que sabe, o que sente, o que é, conforme
sente, como se fosse uma metáfora baseada em sua experiência atual. É
por isso que o céu das formigas deve ser feito de açúcar, dos gatos de
sofás, dos cachorros com muitos ossos.
Nossos céus e infernos refletem o
que somos e o que somos não se limita ao corpo ou a mente. Somos mais do
que isso, mais do que “almas”, somos a casa que está em construção na
relatividade, mas de algum modo pronta onde tudo de fato já é.
Flávio Siqueira
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